sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Jornal da Tarde – O senhor foi responsável pelos tradutores na Cidade do Cabo e em Johanesburgo, durante a Copa da África do Sul. Como foi esse trabalho?
Gavin Eyre – As empresas patrocinadoras levam convidados de vários países. Uma companhia de cartão de crédito me contratou para ajudar na comunicação, como aconteceu também na Copa da Alemanha. Os convidados eram brasileiros, japoneses, chineses, europeus em geral. E a ideia era ter pessoas falando no idioma dos visitantes. Decidiram que precisavam de tradutores para quem não entendia inglês, já que na África do Sul esse é o idioma oficial.
Eram tradutores voluntários?
Sim. É comum a Federação Internacional de Futebol (FIFA) chamar voluntários para trabalhar na Copa. Chamei meus alunos internacionais. Alguns eram brasileiros. Para eles, ciceronear os turistas foi uma rica experiência. Passavam informações sobre futebol, a cidade, como se localizar por lá. Ajudavam também no embarque e desembarque nos aeroportos.
Quando o trabalho foi iniciado?
Seis meses antes, procuramos os alunos que estavam no grau mais avançado de inglês e com perfil para participar. Cada estudante atendia os convidados cujo idioma era o mesmo que o dele. Apesar de voluntários, os escolhidos eram profissionais de suas áreas, acostumados a lidar com o público, preparados, com boa aparência e conheciam bem as cidades. Eles amaram.
No Brasil, a maior parte da população não fala inglês. O que fazer para isso não se tornar um problema?
Na Copa da Alemanha, por exemplo, em cada estação de metrô, trem, ônibus, havia alguém falando espanhol, japonês e todos os idiomas possíveis. O país convocou quem dominava outras línguas. Aqui, vocês têm imigrantes que podem ajudar, além de brasileiros que conhecem outros idiomas. Principalmente em São Paulo, não deve ser pouca gente que domina línguas estrangeiras. É uma oportunidade para os brasileiros praticarem ou até aprenderem. Não ganharão dinheiro, mas as despesas das viagens serão pagas e a experiência será única.
Os sul-africanos em geral também aprenderam outros idiomas?
Sim. Na Cidade do Cabo, por exemplo, iniciamos três anos antes um treinamento com equipes de hotéis e serviços para falarem ao menos o básico em outros idiomas. Muitas pessoas passaram a dominar uma segunda língua. E metade da população local foi treinada um ano antes. Eles aprenderam o idioma das seleções que passaram pela cidade e sabiam informar os turistas e fãs dos times que estavam hospedados lá. No Brasil, acho importante esse conhecimento. No mínimo, os hotéis devem preparar suas equipes. E não basta o inglês. Sempre tem alguém que não fala nada do idioma.
Por que é importante a população local se envolver?
A população local realmente não teria obrigação de se envolver. Eles deviam, teoricamente, apenas aproveitar a festa. Mas se tornar parte da festa também é gratificante. São Paulo é tão grande, com uma comunidade tão variada, que essa união para receber visitantes não deve acontecer. Talvez no Norte e Nordeste sim, justamente por comportarem cidades menores.

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